terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Quaresma


“Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo. Por quarenta dias e quarenta noites esteve jejuando. Depois teve fome. Então, aproximando-se o tentador, disse-lhe...” (Mt 4,1-11)
Deus não nos chamou para pouco e sim para vivermos uma vida junto a Ele, “A vontade do Pai é de elevar os homens a participação na vida divina” (LG, 2). O Senhor Jesus nos deu acesso ao Pai e é justamente no Cristo que podemos refazer nossas vidas e abraçar este chamado de união de coração com Deus e participarmos desta vida Divina. Nos ensina o grande Santo sobre tal desejo de Deus por nós, “Deus pretende fazer-nos deuses, por participação, sendo Ele por natureza” (Santo Agostinho).

A Quaresma é um tempo Litúrgico propício para tomarmos posse desta participação da vida Divina na qual Deus, por meio de seu Filho Jesus, incessantemente nos chama. O Cristo é conduzido pelo Espírito Santo ao deserto e ali passa quarenta dias e quarenta noites, sobre esses dias no deserto dentro da liturgia o Catecismo da Igreja Católica diz que, “A Igreja se une a cada ano, mediante aos quarenta dias da Grande Quaresma ao mistério de Jesus no deserto (CIC 540)”. O deserto na linguagem bíblica tem dois significados, o primeiro é o de silêncio interior. No profeta Oséias, Deus diz: “Levar-te-ei ao deserto e falarei ao coração” (Os 2,16). O silêncio é primordial para que Deus fale ao coração do homem, para que o homem redescubra em meio aos inúmeros compromissos diários, a importância de se retirar e se entreter com Deus na oração, porque como vimos acima, o homem nasceu para partilhar com Deus dessa vida Divina.

“No deserto Jesus é o Novo Adão que permanece fiél onde o primeiro sucumbiu à tentação” (CIC 539). As tentações que Jesus sofreu em sua quaresma, segundo a tradição judaica, foram contra a lei suprema de amor a Deus, contida no Deuteronômio (Dt 6,5): “Amar a Deus de todo coração...”, quer dizer, não submeter aos desejos interiores de si e não se rebelar contra o alimento divino que é o maná. “... de toda alma...”, de todas as formas amá-Lo com nosso corpo, até o martírio se necessário. “... com toda força”, tomando cuidado para que os bens que possuímos não tome o lugar de Deus no coração. Por fim o Cristo permanece fiel, amando ao Pai com perfeição e nos ensinando a permanecer firmes nesta Quaresma que se inicia, diferentemente de Adão. “A vitória de Jesus sobre o tentador antecipa a vitória na Paixão” (CIC 539).

“No deserto Jesus cumpre a perfeição da vocação de Israel” (CIC 539). Povo eleito de Deus, que por infidelidade Deus o corrigiu de sua idolatria, fazendo com que eles
caminhassem 40 anos no deserto (Dt 8,2-3), como o salmista nos diz: “Quarenta anos esta geração me desgostou” (Salmo 95,10).

Portanto, aquele que vive este tempo litúrgico assume a plenitude da vocação de Israel, a vida nova oferecida pelo novo Adão, Jesus Cristo, e adentra no mistério da intimidade com Deus na oração e no silêncio.

Na Quaresma, também exercita-se as leis evangélicas: “A esmola, a oração e o jejum são leis evangélicas” (CIC 1969). Estas práticas são as obras onde na qual demostraremos nossa fé neste tempo litúrgico (Tg 2,27). Pela esmola vamos até o próximo, damos a ele atenção e vivemos a caridade ardente, mostramos uma Igreja preocupada com o outro, “Do Altar de Deus ao altar do próximo” é o que ensina São Francisco Xavier. A oração é de suma importância neste tempo quaresmal para que a esmola não se torne simples assistencialismo e o jejum não seja estéril em nós e na vida da Igreja. Na vida de ascese, o jejum e a abstinência de carne são essenciais, porque estaremos sendo obedientes ao 4° mandamento da Igreja, que é o de jejuar e abster-se de carne. Pelo jejum obtemos força da graça de Deus para vencermos as tentações e nossas más paixões, instintos e nos introduz a verdadeira liberdade.

Por fim, a Quaresma é um tempo de conversão, simbolizado por seu início, a Quarta Feira de Cinzas, as cinzas é sinal bíblico de arrependimento e conversão, ou seja, “Metanóia” (do grego= mudança de pensamento). Jesus dizia no início de sua pregação: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15), esse é o grande apelo da Quaresma, mudança de vida, para prepararmos o caminho para a misericórdia de Deus manifestada em seu Filho, “Deus enviou seu Filho único como vítima de expiação pelos nossos pecados” (1 Jo 4,10).

Além da 1ª conversão, a do Batismo, temos que viver a 2ª conversão, e essa não pode cessar nunca, que é a dos pecados diários, “Na Igreja há duas conversões: a água e as lágrimas, do batismo e da penitência” (Santo Ambrósio).

A experiência da conversão exige coragem, empenho e amor à vontade de Deus, pois o primeiro sintoma de conversão, conforme ensina os Santos Padres é a tristeza interior. Não é fácil deixar o que gostamos, nem um pouco. A Quaresma é um tempo de sofrimentos internos pelo Reino de Deus, mas o Cristo misericordioso do alto do Madeiro da Cruz está a nossa espera, pecadores que somos, pois, “Onde abundou o pecado, a graça superabundou” (Rm 5,20).

“Conversão não obra humana e sim movimento do coração contrito, movido pela graça a responder o amor misericordioso de Deus que nos amou primeiro” (CIC 1423).


Guilherme Teles, fundador

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